Áudios atribuídos ao presidente da Bamor, Matheus Pires Castro, revelam a gravidade das sessões de tortura investigadas na sede da torcida organizada do Bahia, em Salvador. Nas gravações, ele convoca diretores e integrantes do grupo para participar de agressões físicas e psicológicas contra pessoas suspeitas de envolvimento em supostas irregularidades financeiras.
Em um dos trechos, o dirigente afirma que seriam utilizados alicates para arrancar as unhas de uma das vítimas. Em outra mensagem, alerta que pessoas com aversão a sangue não deveriam comparecer ao local, indicando que a violência seria usada como exemplo para os demais integrantes.
O caso ganhou novos desdobramentos após a prisão de dez suspeitos, em 28 de setembro. Em 2 de outubro, o Ministério Público da Bahia (MP-BA) denunciou os investigados por crimes como organização criminosa, tortura, roubo, extorsão e ameaça. Segundo as informações divulgadas, todos permaneciam presos na data da publicação original, em 21 de outubro.
Áudios mostram ameaças de mutilação
Nas gravações, Matheus Pires Castro demonstra intenção de promover agressões severas e tenta afastar da reunião aqueles que manifestassem receio de participar dos atos violentos.
Em uma das mensagens, ele minimiza a possibilidade de consequências policiais. Em seguida, anuncia que a vítima deveria sofrer ferimentos graves.
“Amanhã é tirar a saúde dele. Vamos pegar até uns alicates para a gente arrancar as unhas dele”, afirma o homem identificado como presidente da torcida.
Em outro trecho, ele diz que a vítima deveria sair do local com a mão esmagada, a ponto de precisar passar por uma cirurgia. Também orienta que pessoas preocupadas com possíveis consequências legais não compareçam à reunião.
As gravações incluem ainda ameaças de ferimentos na cabeça e referências a uma cena de violência que serviria de exemplo para outras pessoas.
Vítimas teriam sido torturadas durante horas
De acordo com as investigações do Ministério Público, pelo menos duas pessoas foram submetidas a sessões de agressões físicas e psicológicas na sede da Bamor, em julho deste ano. Os episódios teriam ocorrido na sala da diretoria e durado horas.
Uma das vítimas integrou a torcida organizada por 18 anos, atuou como líder de arquibancada e era responsável pelo sistema de cadastro de associados. Segundo a apuração, ele foi chamado à sede para prestar esclarecimentos sobre uma suspeita de ativação de planos de sócios sem a identificação dos respectivos repasses financeiros.
A segunda vítima prestava serviços na área de tecnologia para a entidade. Ela também teria sido submetida a agressões após negar participação em supostas irregularidades e sugerir que o caso fosse levado à polícia.
Conforme o MP-BA, os dois teriam sido pressionados a confessar irregularidades. Os relatos apontam espancamentos, ameaças, sufocamento e simulações de afogamento, além do uso de objetos como taco de beisebol, martelo e alicate.
Durante a operação que resultou nas prisões, policiais apreenderam esses objetos na sede da torcida. Segundo as informações da investigação, as vítimas reconheceram os materiais.
Vítima relata agressões e transferência de R$ 5,8 mil
Um dos homens relatou que compareceu à sede da Bamor de boa-fé, acreditando que prestaria esclarecimentos sobre as suspeitas levantadas. Ele afirmou que não imaginava que seria submetido a sessões de tortura.

Segundo o depoimento, as agressões duraram aproximadamente quatro horas e incluíram pauladas, golpes com taco de beisebol e tentativas de ferir os dedos e as orelhas com alicates. A vítima também relatou simulações de afogamento.

Ainda conforme o relato, os suspeitos exigiram a senha de uma conta bancária durante as agressões. Depois que ele forneceu os dados, aproximadamente R$ 5,8 mil teriam sido transferidos para uma conta da associação.
O Ministério Público também apura o suposto roubo do celular de uma das vítimas e a realização de transferências bancárias durante os episódios. Esses fatos integram a investigação sobre possíveis crimes patrimoniais, além das acusações de tortura.
Dez integrantes foram denunciados
Entre os denunciados estão integrantes da cúpula da torcida organizada, incluindo o presidente, o vice-presidente e diretores de diferentes setores.
A lista apresentada pelo Ministério Público inclui Matheus Pires Castro, Luciano da Silva Venâncio, Gabriel Pereira Silva, Daniel Sena Duarte, Ricardo Henrique Almeida da Silva, Diego Allan Conceição Sacramento, Ivã Cleiton de Jesus Santos, Luiz Wagner da Silva Santana, Alan Rafael Regis Alves de Aquino e Fernando Santana Esquivel, policial militar apontado como integrante da torcida.
Segundo a promotora de Justiça Thelma Leal, os investigados teriam participado das agressões em diferentes graus de envolvimento. A responsabilização criminal de cada denunciado, entretanto, deverá ser definida no curso do processo judicial.
Defesa nega acusações e Bamor se manifesta
A defesa de Matheus Pires Castro e Luciano Venâncio declarou que os clientes são inocentes e que as medidas judiciais cabíveis estão sendo adotadas.
Em nota, a Bamor afirmou respeitar o trabalho das autoridades e defendeu que as investigações sejam conduzidas com critérios objetivos e imparciais. A entidade também declarou não compactuar com condutas ilícitas e ressaltou que eventuais responsabilidades devem ser individualizadas.
O Ministério Público esclareceu que a investigação se concentra nos integrantes suspeitos de participação nos crimes, e não na associação como um todo. A sede foi fechada porque, segundo as apurações, as sessões de tortura teriam ocorrido no local.
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A operação foi coordenada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MP-BA, com a participação de equipes da Polícia Civil, da Polícia Militar e de outros órgãos da Secretaria da Segurança Pública da Bahia.
O caso segue no âmbito judicial, com acusações graves que ainda precisam ser apreciadas pela Justiça


