Na véspera do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, as pesquisas apontam uma disputa acirrada entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Os levantamentos divulgados neste sábado (24) mostram Flávio numericamente à frente, mas as diferenças permanecem dentro das margens de erro dos principais institutos.
O cenário contrasta com o de 2018, quando Jair Bolsonaro tinha uma vantagem de aproximadamente dez pontos percentuais sobre Fernando Haddad. Já em 2022, Lula aparecia na liderança contra Bolsonaro, embora algumas pesquisas indicassem uma distância maior do que aquela registrada nas urnas.
Mas o que esses três pleitos revelam sobre a capacidade das pesquisas de medir a intenção de voto na reta final? Para responder, é necessário comparar os números divulgados antes de cada votação com os resultados oficiais.
2018: Bolsonaro chegou à votação com dez pontos de vantagem
Na véspera do segundo turno de 2018, os institutos Datafolha e Ibope apontavam uma vantagem expressiva de Jair Bolsonaro, então candidato pelo PSL, sobre Fernando Haddad, do PT.
O Datafolha indicava 55% dos votos válidos para Bolsonaro e 45% para Haddad. Por sua vez, o Ibope estimava 54% para Bolsonaro e 46% para o petista. Ambos os levantamentos tinham margem de erro de dois pontos percentuais.
No domingo, 28 de outubro, as urnas confirmaram a vitória do candidato do PSL. Com a apuração concluída, Bolsonaro recebeu 55,13% dos votos válidos, enquanto Haddad terminou com 44,87%. Portanto, a diferença final ficou em 10,26 pontos percentuais, muito próxima daquela indicada pelo Datafolha.
Naquele ano, portanto, as pesquisas da véspera retrataram com relativa precisão a distância entre os candidatos. Embora os levantamentos não reproduzissem exatamente o resultado, eles apontavam corretamente para uma vitória com vantagem considerável.
2022: pesquisas indicavam vitória de Lula, mas a disputa terminou mais apertada
Quatro anos depois, o cenário era diferente. Luiz Inácio Lula da Silva disputava o segundo turno contra o então presidente Jair Bolsonaro e chegava à véspera da votação numericamente à frente nos principais levantamentos.
Em 29 de outubro de 2022, o Datafolha indicava 52% dos votos válidos para Lula e 48% para Bolsonaro. O Ipec, por sua vez, apontava 54% para o petista e 46% para o então presidente. Os dois institutos trabalhavam com margem de erro de aproximadamente dois pontos percentuais.
Entretanto, o resultado oficial mostrou uma diferença menor do que aquela estimada pelo Ipec. Lula venceu com 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de Bolsonaro, uma distância de apenas 1,80 ponto percentual.
A comparação evidencia uma diferença importante entre os levantamentos. O Datafolha estimava uma vantagem de quatro pontos para Lula, enquanto o resultado final apresentou uma distância de 1,80 ponto. Já o Ipec indicava oito pontos de vantagem, mais de seis pontos acima da diferença efetivamente registrada nas urnas.
Isso não significa, por si só, que todas as pesquisas de 2022 tenham falhado da mesma maneira. Cada instituto utiliza uma metodologia própria, além de amostras, períodos de coleta e procedimentos de ponderação diferentes. Ainda assim, o resultado mostrou que uma eleição pode terminar muito mais apertada do que sugerem alguns levantamentos da véspera.
2026: Flávio Bolsonaro aparece à frente, mas a diferença está dentro da margem de erro
Agora, a disputa entre Flávio Bolsonaro e Lula chega ao domingo de votação com um cenário mais equilibrado nas pesquisas divulgadas na véspera.
No Datafolha, Flávio aparece com 51% dos votos válidos, contra 49% de Lula. A pesquisa ouviu 4.050 eleitores nos dias 23 e 24 de outubro, com margem de erro de dois pontos percentuais.
A Quaest também aponta 51% para Flávio e 49% para Lula nos votos válidos. O instituto entrevistou 3.702 pessoas nos dias 23 e 24 de outubro, com margem de erro de dois pontos percentuais.
Já a AtlasIntel/Bloomberg registra 50,8% para Flávio e 49,2% para Lula. Nesse caso, a margem de erro é de um ponto percentual, e a diferença entre os candidatos é de 1,6 ponto. Portanto, o levantamento também indica empate técnico.
A CNT/MDA apresenta números igualmente próximos: 50,7% para Flávio e 49,3% para Lula. A Gerp, por outro lado, mostra uma distância um pouco maior, com 52% para o senador e 48% para o presidente. Mesmo assim, a diferença apontada pela Gerp permanece dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
Os números mostram uma tendência comum: Flávio aparece numericamente à frente nos principais levantamentos divulgados neste sábado. No entanto, essa vantagem não permite afirmar que a vitória esteja definida, já que as diferenças permanecem dentro das margens de erro.
O que os números revelam quando comparamos os três pleitos?
A comparação entre 2018, 2022 e 2026 mostra que a distância indicada pelas pesquisas da véspera pode variar bastante em relação ao resultado final.
Em 2018, Bolsonaro tinha aproximadamente dez pontos de vantagem sobre Haddad no Datafolha e venceu com uma diferença de 10,26 pontos. Assim, o levantamento retratou com bastante proximidade o resultado que viria a ser confirmado nas urnas.
Em 2022, Lula aparecia quatro pontos à frente de Bolsonaro no Datafolha e oito pontos à frente no Ipec. Entretanto, terminou a eleição com uma vantagem de apenas 1,80 ponto percentual.
Já em 2026, as principais pesquisas mostram uma diferença entre 1,4 e quatro pontos percentuais, conforme o instituto. Em todos esses cenários, a margem de erro precisa entrar na análise antes de qualquer conclusão sobre quem está mais próximo da vitória.
Além disso, não é correto comparar apenas os números isolados. O período em que cada instituto realizou as entrevistas, a forma de seleção dos participantes e os métodos utilizados para calcular as estimativas também influenciam os resultados.
Margem de erro não é garantia de resultado
Um dos principais cuidados na leitura de pesquisas eleitorais é compreender o significado da margem de erro.
Quando um levantamento aponta 51% para um candidato e 49% para o adversário, com margem de erro de dois pontos percentuais, a diferença observada não permite estabelecer uma liderança estatisticamente clara. Por isso, os institutos classificam esse cenário como empate técnico.
Isso não significa que os candidatos necessariamente receberão percentuais iguais nas urnas. A margem de erro é uma medida estatística associada à estimativa, e não uma garantia de que o resultado final ficará dentro de determinado intervalo.
Além disso, pesquisas registram as intenções de voto no período em que os entrevistados respondem às perguntas. Entre a coleta dos dados e a apuração, fatores como mudanças de opinião, comparecimento dos eleitores e diferenças entre a amostra e o eleitorado que efetivamente vota podem influenciar o resultado.
Portanto, uma pesquisa não deve ser interpretada como uma previsão definitiva. Ela oferece um retrato da disputa naquele momento e precisa ser analisada junto com sua metodologia.
Abstenção pode ter papel importante no resultado
Em uma eleição apertada, o comparecimento às urnas também merece atenção. Isso porque a intenção de voto declarada não garante que o eleitor efetivamente comparecerá para votar.
No primeiro turno de 2026, 21,08% do eleitorado apto não compareceu às urnas, segundo os dados divulgados na véspera do segundo turno. Dessa forma, a participação dos eleitores pode ter peso relevante em uma disputa com diferenças tão pequenas nas pesquisas.
Entretanto, não basta considerar o índice geral de abstenção. É necessário avaliar como o comparecimento se distribui entre diferentes regiões e grupos de eleitores, sem presumir que todos os segmentos terão o mesmo comportamento no segundo turno.
Em uma eleição equilibrada, pequenas diferenças na participação podem influenciar a votação final. Ainda assim, não é possível antecipar o resultado apenas com base nas taxas de abstenção ou nos percentuais de intenção de voto.
O que esperar da apuração deste domingo?
A comparação histórica deixa uma lição importante: pesquisas eleitorais ajudam a compreender a disputa, mas não substituem o resultado das urnas.
Em 2018, os levantamentos da véspera apontaram uma vantagem que se confirmou no resultado final. Em 2022, embora Lula aparecesse à frente, a diferença registrada nas urnas foi menor do que aquela indicada por alguns institutos.
Agora, em 2026, Flávio Bolsonaro chega à votação numericamente à frente nas principais pesquisas divulgadas na véspera, mas dentro de um cenário de empate técnico.
Por isso, a conclusão mais responsável é que a disputa permanece aberta do ponto de vista estatístico. A definição dependerá dos votos efetivamente depositados nas urnas e da apuração oficial.
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Mais do que tentar transformar uma pesquisa em prognóstico, o eleitor deve observar os dados com senso crítico, comparar metodologias e aguardar o resultado oficial da Justiça Eleitoral.


